"Tulio Costa coleta objetos como forma de mapear seus trânsitos pelo mundo, interessando-se por aqueles que guardam marcas de uso. Autorretrato-acidente reúne retrovisores encontrados entre 2015 e 2023, condensando um tempo dilatado. Os espelhos são organizados em um grid de limites irregulares: os mais inteiros concentram-se no centro, enquanto os das bordas são mais destruídos, produzindo uma imagem de dissipação. Há um contraste entre as marcas de fratura, que implicam violência, e a rigidez da estrutura. A irregularidade sugere uma escrita, como um código de pontos que se repetem e variam. A tradição do autorretrato, que demonstra simultaneamente narcisismo e autoconsciência, não se limita à imagem do artista. Aqui, a contingência do conjunto pode ser lida como registro de suas andanças, dos lugares pelos quais passou, dos acidentes que presenciou ou encontrou. Escrever sobre si implica outros que o informam. Sendo espelhos, ainda que estilhaçados, os objetos refletem quem os observa: o outro torna-se parte do eu da obra. Em vez de uma imagem estável de si, o trabalho evoca um sujeito constituído por cacos, deslocando a tradição celebratória do gênero ao também incluir seus traumas.
Madame M."
Tulio Costaautorretrato-acidente, 2015-2023
retrovisores encontrados, 370 × 200 cm
foto: rafael augusto